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Os evangélicos “Genéricos”
Alonso de Souza Gonçalves
Pastor, Colaborador de OJB
Recentemente, 15 de Agosto, a Folha de S. Paulo divulgou uma pesquisa feita pela POF – Pesquisa de Orçamento Familiar – sobre o declínio acelerado de uma denominação neopentecostal. No período de 2003 a 2009, ela perdeu 24 por cento do total de seus fiéis.
Os fatores principais são o surgimento de dissidências religiosas entre os próprios neopentecostais, o fortalecimento das igrejas já existentes e o aumento do número de “evangélicos genéricos”. Em entrevista à Folha de São Paulo, a antropóloga Regina Novaes disse que esses “evangélicos genéricos” assemelham-se aos católicos não praticantes. ”Eles usufruem de rituais de serviços religiosos, mas se sentem livres para ir e vir (de uma igreja para outra)”.
Os “genéricos” são crentes que não se sentem presos a nenhuma igreja e podem freqüentar ao mesmo tempo duas ou mais denominações. No mesmo período, de acordo com a POF, esses evangélicos aumentaram de 4 por cento para 14 por cento, atingindo quase todas as denominações. Em seis anos, cinco milhões de evangélicos deixaram de ter vínculo com igreja.
Esse fenômeno está tomando expressivas proporções agora no Brasil. Em países da Europa e nos EUA, o movimento dos “sem-igreja” já é um fato mais que concreto. É só olhar os títulos de livros publicados aqui que tratam desse tema por lá, como o de Wayne Jacobsen e Dave Coleman – “Por que você não quer ir mais à igreja”?(Editora Sextante). É um texto que procura encontrar a dimensão originária do cristianismo e questiona a estrutura eclesiástica como forma de ensinar a espiritualidade.
Outro é de Brian McLaren – “Uma ortodoxia generosa” (Editora Palavra), onde ele propõe uma revisão no que a igreja chama de dogmas e doutrinas. David N. Elkins com o seu “Além da religião” (Editora Pensamento), é um decepcionado com o sistema religioso herdado dos pais. Como pastor, experimentou algumas frustrações. A temática do livro dele é a separação entre espiritualidade e religião. Para Elkins, o desenvolvimento espiritual não tem qualquer relação com práticas, ritos e costumes de uma religião, mas com o milagre da vida. Um erro que o autor aponta, e que é tão comum em nossas comunidades, é associar a vida espiritual e a espiritualidade com o ir à “igreja”.
No mesmo caminho, esta o livro do brasileiro Paulo Brabo “A bacia das almas” (Editora Mundo Cristão). Com textos provocantes e contextualizados, Brabo questiona a maneira equivocada da igreja-instituição entender a mensagem de Jesus. Ele pontua que é possível separar Jesus da Bíblia e da igreja. Um cristianismo sem nenhum contato com as regras e a batuta da igreja–instituição.
A pesquisa do POF demonstra aquilo que já sabíamos: as pessoas hoje aderem a uma religião, seita ou movimento não mais por sua doutrina, aliás, isso foi há muito tempo, mas por seu preenchimento existencial. Dado interessante é que cresce o número de evangélicos “genéricos” (nomenclatura atribuída pela Folha de S. Paulo), e, ao mesmo tempo, na cidade de São Paulo, por exemplo, o budismo tem tido um crescimento significativo, principalmente entre a classe média. No Brasil, a hegemonia cultural religiosa já deixou de ser católica há décadas, mas há outras vertentes religiosas que estão conquistando espaço, inclusive o islamismo. Enquanto isso, o protestantismo está discutindo assuntos totalmente irrelevantes para o atual contexto religioso no país. Parece que não estamos preparados para discutir o que chamo de “democratização religiosa”. Alguns ainda não se deram conta de que não há mais espaço para o proselitismo baseado no medo e na dor (embora esse imaginário ainda reine no interior do país).
As igrejas neopentecostais estão favorecendo a proliferação dos evangélicos “genéricos”, principalmente quando transformam o templo religioso em uma “agência” de cura divina e banco financeiro espiritual. Hoje há um grande trânsito religioso, um verdadeiro supermercado, por conta dessas denominações. Pessoas têm uma agenda semanal para participar de eventos dos mais esdrúxulos possíveis. Por outro lado, o protestantismo favorece esse cenário quando nossas preocupações são triviais e supérfluas e quando pregamos uma espiritualidade baseada no fazer e não no ser, na moralidade e não nos princípios.
O evangélico “genérico” não suporta mais um moralismo farisaico e sadomasoquista que alguns chamam de vida cristã. Eles preferem transitar a ficarem presos em uma denominação específica.
Fonte: O Jornal Batista de 11/9/2011, p 6




